
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo, em meio à crise política provocada pelo escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o agora presidente pediu desculpas à população e classificou o episódio como um dos momentos mais difíceis de sua vida.
Durante o pronunciamento, Peña afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.
“Decidi apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, declarou.
O presidente também ressaltou que sua decisão respeita a Constituição paraguaia e os mecanismos institucionais do país. Segundo ele, nenhum cargo deve estar acima do bem-estar da população.
A renúncia foi anunciada no mesmo dia em que o Congresso paraguaio iniciou os primeiros procedimentos para a abertura de processos de impeachment contra Peña e o vice-presidente, Pedro Alliana.
Entenda a crise envolvendo o Ueno Bank
A crise política está relacionada à situação financeira do Ueno Bank, instituição digital que teve suas atividades suspensas pelo Banco Central do Paraguai (BCP) na terça-feira (3).
A decisão deixou aproximadamente 2,9 milhões de clientes sem acesso às próprias contas bancárias. Entre os afetados também estão brasileiros que utilizavam os serviços da instituição.
O Banco Central iniciou um processo de resolução do Ueno Bank, procedimento semelhante à liquidação extrajudicial adotada no Brasil.
Durante uma análise dos balanços financeiros, o órgão identificou que o índice de solvência da instituição estava abaixo de 50% do mínimo exigido pela legislação paraguaia.
Com a intervenção, as agências foram fechadas, o aplicativo deixou de funcionar e os clientes perderam temporariamente o acesso às contas e aos cartões.
Empréstimos suspeitos e prejuízo milionário
As investigações apontam que o Ueno Bank teria concedido empréstimos em excesso a empresas ligadas ao próprio grupo controlador, sem garantias financeiras suficientes.
De acordo com o Ministério Público, as operações consideradas suspeitas ultrapassam US$ 167 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 900 milhões.
Parte desse dinheiro pode não ser recuperada, aumentando as preocupações sobre os prejuízos financeiros provocados pela crise.
Até o momento, oito dirigentes tiveram a prisão decretada. Entre eles estão o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o presidente do Grupo Vázquez, Miguel Vázquez.
Ao todo, 27 pessoas foram formalmente acusadas por suspeitas de crimes como lesão de confiança, caracterizada pelo prejuízo causado por quem administra patrimônio de terceiros, e tentativa de estelionato.
Qual é a ligação de Santiago Peña com o Ueno Bank?
A relação entre o presidente Santiago Peña e o grupo controlador do Ueno Bank é um dos principais pontos de questionamento da oposição.
Peña ocupou o cargo de presidente do Paraguai a partir de 2023 e foi sócio da holding responsável pelo controle do Ueno até março de 2025. Ele afirma que não possui mais vínculos com o grupo empresarial.
Outro ponto que gerou controvérsia foi a escolha de Carlos Carvallo para comandar o Banco Central do Paraguai.
Antes de assumir a presidência do órgão regulador, Carvallo dirigia a versão anterior do Ueno. Com isso, a instituição financeira passou a ser fiscalizada por um ex-dirigente do próprio banco.
O Banco Central, por sua vez, sempre sustentou que Carvallo se afastava das decisões relacionadas ao Ueno.
O que a oposição acusa contra o presidente?
No pedido de impeachment, parlamentares da oposição apontam possíveis irregularidades envolvendo a atuação de Santiago Peña e sua relação com o grupo financeiro.
Entre as principais acusações estão:
- Possível conflito de interesses entre o presidente e o grupo controlador do banco;
- Alterações em regras que teriam favorecido o Ueno Bank;
- Suposto direcionamento de recursos da previdência para a instituição financeira;
- Utilização do Banco Central para encobrir possíveis irregularidades.
A deputada Rocío Vallejo, uma das responsáveis pela acusação, criticou a dimensão dos prejuízos e afirmou que nunca havia visto uma situação em que aproximadamente 3 milhões de paraguaios fossem prejudicados em um único dia.
Santiago Peña nega responsabilidade pela crise
Apesar das acusações, Santiago Peña nega qualquer responsabilidade pelas irregularidades atribuídas ao Ueno Bank.
O presidente afirma que o caso é isolado e defende que todos os envolvidos em eventuais crimes sejam responsabilizados pela Justiça, sem privilégios.
A crise financeira do banco, no entanto, ampliou a pressão política sobre o governo paraguaio e provocou questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e a relação entre autoridades públicas e grupos empresariais.
A renúncia de Peña representa um novo capítulo da crise institucional no Paraguai, que agora enfrenta o desafio de preservar a estabilidade política e garantir respostas aos milhões de clientes afetados pelo colapso da instituição financeira.
Confira a íntegra do comunicado lido por Peña:
“Queridos compatriotas, hoje me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância.
A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos toca viver. Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas.
Faço-o com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos para nós mesmos como nação. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai.
Também quero pedir desculpas ao povo, caso eu tenha falhado em algum momento; nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Assumi esta responsabilidade todos os dias com a vontade de trabalhar pelo Paraguai, mas hoje a minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito, há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares.
Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos, que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra a sua finalidade e que sejam protegidos os fundos públicos e os recursos que pertencem a todos os paraguaios.
Queridos compatriotas, somos um país que atravessou momentos muito difíceis e que sempre soube se reerguer. Confio profundamente na força do nosso povo e na capacidade das nossas instituições para superar esta situação.
Hoje, devemos demonstrar, mais uma vez, que a democracia é respeitada, que as instituições são preservadas e que o Paraguai está acima das nossas diferenças. Nenhum cargo é mais importante do que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai.
Agradeço pela confiança, por cada momento vivido e por terem me dado a honra de servir a esta grande nação. Que Deus abençoe cada família paraguaia e que Deus abençoe o Paraguai.”
Com informações, Gaúcha ZH







