O homem acusado de matar a advogada Karize Ana Fagundes Lemos, em Caçador, foi condenado a 31 anos e 10 meses de prisão pelo Tribunal do Júri da Comarca. O julgamento ocorreu nesta quinta-feira (10) e teve quase 15 horas de duração. A sentença foi lida às 22h30.
Conforme a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), o réu foi condenado por homicídio qualificado por feminicídio, motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver.
O crime ocorreu em 28 de setembro de 2024, dentro da residência de Karize. Na época, ela se recuperava de uma cirurgia nos rins. Segundo as investigações, o companheiro a enforcou com uma corda de sisal, retirada de um arranhador de gatos, após ela manifestar o desejo de terminar o relacionamento.
Depois do assassinato, o homem enrolou o corpo em um cobertor, colocou a vítima no carro e dirigiu por aproximadamente 150 quilômetros até Palmas, no Paraná, onde descartou o cadáver em uma plantação de pinus.
Durante o trajeto, ele ainda parou em um posto de combustíveis, abasteceu o veículo e saiu sem pagar. Posteriormente, ligou para dois amigos e contou o que havia feito. Os homens procuraram a polícia e relataram o conteúdo da conversa, dando início a uma operação para localizar o suspeito e a vítima.
O acusado foi preso dois dias depois em um motel de Guaíra, no Paraná, próximo à fronteira com o Paraguai. Conforme as investigações, ele não conseguiu atravessar para o país vizinho porque a fronteira estava fechada para obras.
Corpo foi localizado por meio de investigação
O réu não informou às autoridades onde havia deixado o corpo. A localização foi descoberta a partir de um trabalho de inteligência e da análise de dados extraídos do celular.
A identificação de Karize foi confirmada por meio da comparação da arcada dentária com um exame odontológico realizado anteriormente. A perícia também apontou que o roupão usado pela vítima e o cobertor que envolvia o corpo eram os mesmos que apareciam em fotografias publicadas anteriormente nas redes sociais.

Imagem: Rádio Capinzal
Julgamento
A sessão do Tribunal do Júri começou às 7h30 e terminou às 22h27. Sete testemunhas foram ouvidas, entre elas um amigo e uma vizinha de Karize, dois policiais civis, a frentista do posto de combustível e os dois homens que receberam a ligação do acusado.
O réu chegou ao Fórum de Caçador em uma viatura da Polícia Penal e retornou ao presídio após o julgamento. Durante o interrogatório, confessou o crime. Ele teve direito à ampla defesa e foi representado por dois advogados.
Na acusação, os Promotores de Justiça Diego Bertoldi e Marco Antônio Vargas Sandi sustentaram as teses apresentadas na denúncia.
“Neste plenário há uma pessoa que não pode clamar por justiça, e essa pessoa se chama Karize, mas o Ministério Público de Santa Catarina está aqui para falar em nome dela. Não vamos permitir que a verdade seja enterrada junto com o corpo, pois isso representaria um segundo assassinato. Senhoras e senhores jurados, o poder da vida está nas mãos de vocês”, afirmou Bertoldi.
Marco Antônio Vargas Sandi destacou as provas reunidas durante a investigação. “As imagens da cena do crime feitas pela perícia técnica e todo o restante do conjunto probatório não deixam dúvidas quanto à autoria e à crueldade empregadas pelo réu. A sociedade clama por justiça, e é papel dos jurados fazê-la”, disse.
Pai afirma que condenação traz alívio
O pai de Karize, Rudnei, acompanhou o julgamento. Ele afirmou que a condenação não diminui a dor da perda, mas representa um alívio depois de meses de sofrimento.
“A gente sofre muito. Foram 40 dias de muita angústia, e quando o corpo finalmente foi encontrado nem consegui fazer um velório decente, pois ele já estava em decomposição. A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração”, desabafou.
A vizinha Vitória de Oliveira, que levava sopa para Karize durante a recuperação da cirurgia, também prestou depoimento. Emocionada, relembrou a convivência com a vítima e o período de buscas.
“A gente se dava muito bem, ela era uma pessoa excelente e confesso que até hoje não caiu a ficha. Não dá para acreditar que fizeram uma crueldade dessas com ela”, disse.
Karize tinha aberto escritório de advocacia
Meses antes de ser assassinada, Karize havia comprado um carro e aberto o próprio escritório de advocacia. Apaixonada por animais, costumava resgatar gatos das ruas e encaminhá-los para tratamento.
Ela tinha cinco gatos em casa. As investigações concluíram que três também foram mortos pelo réu no dia do crime, possivelmente com a mesma corda utilizada para matar Karize. Os outros dois conseguiram deixar o local antes de serem atacados.
Caso ocorreu antes de nova lei do feminicídio
Embora a condenação tenha reconhecido o feminicídio como qualificadora, o caso foi julgado como homicídio. Isso ocorre porque o crime foi cometido antes da entrada em vigor da legislação que transformou o feminicídio em crime autônomo.
Pela legislação penal brasileira, uma lei posterior não pode retroagir para prejudicar o réu.
O caso também integra as estatísticas do Mapa do Feminicídio do MPSC. Karize foi morta pelo companheiro em um contexto de violência doméstica, justamente após manifestar o desejo de terminar o relacionamento. Segundo os dados apresentados pelo Ministério Público, 63,9% das vítimas de feminicídio são mortas por parceiros ou ex-parceiros, enquanto 45,8% dos casos ocorrem após a vítima manifestar o desejo de romper a relação.



